Educação Financeira na Infância e Adolescência

Nunca é cedo demais para aprender a melhor forma de fazermos um bom uso do dinheiro. Mas esse não foi o argumento principal do Ministério da Educação para tornar a Educação Financeira obrigatória na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para e os ensinos fundamental e médio. Muito da motivação desta ação vem do argumento “endividamento”, comprovado pela dramática situação das famílias brasileiras que frequentemente são divulgadas pelas pesquisas, como a feita recentemente pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo.

A pesquisa mostrou que o número de brasileiros endividados bateu um novo recorde em abril de 2022, com 77,7% das famílias brasileiras que terminaram aquele mês com alguma dívida, sobretudo pelo maior uso do cartão de crédito. Se a motivação principal para a obrigatoriedade do ensino parte do endividamento, a solução, dada pelos programas da disciplina, têm ênfase nesta questão.

Como mãe e educadora financeira, eu vi com bons olhos a obrigatoriedade da educação financeira nas escolas. E analisando os programas, não se pode dizer que a maioria não contempla muito do que se entende por educação financeira. Sim, eles não são ruins, mas a ênfase é no endividamento e no consumo, o que pode dar a entender que a educação financeira se resume apenas nestes itens.

Por um lado, os textos reforçam a importância do que fazer para sair e evitar o endividamento. Por outro, e de forma complementar, em como ter um padrão de consumo consciente. Para o primeiro caso são propostos exercícios de Matemática Financeira, que diferencia por exemplo, juros simples de juros compostos. Para o consumo consciente, são propostos exercícios como mostrado no Quadro 1 abaixo. Os dois tipos de exercícios são extremamente válidos, já que muitas crianças e adolescentes estão em um contexto de endividamento e estão também assumindo hábitos de consumo mais precocemente, o que pode ser explicado pelas mudanças ocorridas na dinâmica familiar nas últimas décadas e no impacto da tecnologia sobre o mundo infanto-juvenil.

Quadro 1: Oficina Comprando

Exercício: os alunos irão a feira livre comprar frutas e vegetais e com isso, podem ser introduzidos aos seguintes temas:

    1. Pesquisa de preço
      • Será que podemos comprar na 1ª barraca sem antes verificar se o preço está mais baixo em outras barraquinhas? Não, é necessário fazer uma pesquisa de preço.
      • Mas, os preços não precisam ser iguais porque os produtos são diferenciados. O preço também indica qualidade.
      • Antes de comprar um produto temos que verificar se ele não está estragado ou próximo de perder a validade.
      • Ao comprar frutas e legumes temos que priorizar as frutas da estação, pois são mais frescas e mais baratas.
    2. Negociar preço e quantidade
      • Podemos perguntar se o feirante não pode nos fazer um desconto.
      • Se vamos comprar 1 goiaba por R$ 1,00, é possível negociar caso queiramos comprar uma quantidade maior de goiabas. Por exemplo, 5 goiabas por R$ 4,00.
    3. Necessidade versus Desejo
      • Devemos fazer uma lista do que realmente precisamos comprar para evitar comprar por impulso ou desejo.
      • Nós só devemos comprar o que realmente vamos usar, principalmente os produtos perecíveis, como os produtos da feira livre.
      • O que se compra, deve ser consumido. Na hora de consumir, nós precisamos priorizar os produtos que vão vencer primeiro, fazendo com que não haja desperdício de alimentos e de dinheiro.
    4. Adaptação
      • Tem pessoas que só compram por hábito, ou seja, todas as vezes que vão a feira, compram, por exemplo, 12 laranjas. Mas se as laranjas já não são mais consumidas como antes, os hábitos precisam ser reavaliados.
    5. Anotar os gastos
      • Nós podemos fazer um controle diário / mensal das despesas através de anotações em um papel (ou no computador ou no aplicativo de celular).
      • Podemos pedir para o responsável guardar todas as notas de compras para que possamos tomar nota.

Fonte: Elaboração Própria

A verdade é que decisões financeiras não são simples e por isso, recomenda-se auxílio profissional, mesmo para aqueles que já tiveram acesso à educação financeira. E isso também precisa ser ensinado nos programas porque o conhecimento que as crianças estão recebendo, por melhor e mais amplo que seja, dificilmente vai ser igual a um profissional do mercado.

A Educação Financeira pertence a um campo bastante extenso e pode ser comumente relacionada com a maneira como as pessoas lidam com as finanças no dia a dia, o que inclui controle dos gastos, elaboração de orçamentos para a família, geração de capacidade de poupança, decisões de investimentos, aquisição de outros produtos financeiros, como previdência privada, dentre outros aspectos.

Para a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) a educação financeira pode ser definida como sendo o processo pelo qual os consumidores de serviços financeiros e investidores incrementam sua compreensão a respeito dos produtos financeiros, seus conceitos e seus riscos. Tem como ênfase o desenvolvimento das habilidades e da confiança necessárias para que os indivíduos se tornem mais conscientes de riscos e oportunidades financeiras.

Certamente, não ter educação financeira é um dos principais fatores que contribuem para que os indivíduos contraiam dívidas, assim como condições culturais e sociais e econômicas do País também podem explicar o endividamento do brasileiro. Apesar deste quadro, o que se defende aqui é que a educação financeira, especialmente na infância, não é exclusiva para quem está endividado. Ela é extremamente importante também para aqueles que possuem capacidade de poupança ou que tenham um orçamento equilibrado.

Embora os estudantes dos diferentes níveis escolares ainda não possuam renda e tampouco capacidade de poupança, é preciso enfatizar também este tipo de educação financeira, que vai além e mostra a importância de se proteger contra imprevistos financeiros ou de poupar para atingir objetivos futuros, partes importantes do que conhecemos como Planejamento Financeiro.

Uma prova de que educação financeira não é exclusiva para pessoas endividadas é que todos nós conhecemos, ou já ouvimos falar, exemplos de como muitos brasileiros fazem mal uso dos recursos superavitários. Não são raros casos de investimentos equivocados, como, por exemplo, alocar recursos financeiros em oportunidades de investimentos milagrosas para buscar a maior rentabilidade no mínimo de tempo possível, numa combinação perigosa que ignora os riscos. Ou ainda, investindo sem conhecer seu perfil de investidor e sem ter conhecimento do mercado financeiro. A informação é chave neste processo. A 5ª edição da pesquisa “Raio X do Investidor Brasileiro” feita pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA) em 2021 mostrou dados que corroboram para isso.

Como mostra a tabela 1 abaixo, dentre os poucos que utilizam algum tipo de investimento, a caderneta de poupança é o mais utilizado, o que significa um alto custo de oportunidade para o investidor e um problema grande de falta de informação.

Tabela 1: Investimentos dos Brasileiros por Geração

Fonte: ANBIMA

Ainda que a poupança tenha a preferência em todas as gerações, há diferenças na proporção do favoritismo entre os grupos: quanto maior a faixa etária, maior é o número de pessoas que utilizam a caderneta de poupança (exceto para aqueles com mais de 76 anos). A pesquisa também mostrou que os mais jovens têm levemente uma maior diversificação. O segundo tipo de investimento escolhido por eles são as “Moedas digitais/criptomoedas”, com 5% das escolhas (junto com “em casa/no colchão”). Mais uma vez, isso mostra um problema de informação, mas agora não da falta, mas de seu excesso, dado que este tipo de investimento ganhou uma grande repercussão na internet nos últimos anos e muitos foram atraídos por acharem que em pouco tempo seria possível ter um alto retorno, o que não necessariamente é verdade.

Assim como outros tipos de educação, a financeira é altamente recomendável ainda na infância para que uma vez adultos as crianças e adolescentes que a receberam possam administrem com responsabilidade os seus recursos financeiros. Além da educação formal, que agora é obrigatória, nós pais podemos e devemos oferecer às nossas crianças uma prática dentro de casa e isso pode ser feito de várias formas. Nossas crianças devem participar das decisões financeiras, seja ela maior, como a troca de um bem de consumo durável, ou menor, como ir às compras do mês, por exemplo. Nós devemos incentivá-los a usar bem a mesada, a formar poupança e principalmente ensinar as crianças através do exemplo, praticando bons hábitos financeiros. Este método é, sem dúvida, uma herança valiosa que deixamos aos nossos filhos.